um breve adendo

22 setembro, 2007

“- Doutor o que posso fazer para meus dentes ficarem mais brancos?
– Tente usar uma camisa preta.”

Essa piadinha está presente em um texto* que estou lendo sobre comportamento do consumidor e me chamou a atenção para um conceito importante que eu ainda não havia falado aqui no blog, que é chamado no texto de “percepção por contraste”.  Como temos visto, o contraste é essencial na percepção das cores e seus efeitos.

 Esse tópico pretende mostrar um efeito que ocorre quando se faz qualquer tipo de comparação. Uma característica ( tangível ou intangível) de um corpo, será sempre reforçada quando for contrastada com a cararterística de outro corpo”.

Assim, uma pessoa feia parecerá mais feia, se comparada com alguém considerada bonita.

Passando isso para as cores…

contraste-comparacao.jpg

um  mesmo quadrado cinza parecerá mais claro, quando colocado em meio a um fundo escuro e mais escuro quando colocada diante de um fundo branco. Isso também serve para intensificar os outros tipos de contraste, não apenas entre claro e escuro.

Conhecer esse princípio ajuda muito  quando se quer dar ênfase a algo e ajuda, como sempre, a prever alguns efeitos indesejados.

Por falar em efeitos indesejados, olhe como nosso cérebro é enganado nessa imagem. Os quadrados A e B possuem exatamente a mesma cor,

 

O cérebro tenta interpretar os quadrados como eles são em um tabuleiro, ou seja, com alternância entre claros e escuros. Por isso “não aceita” que os quadrados “A” e “B” sejam da mesma cor, além disso o  quadrado “A” está envolvido por quadrados mais claros, enquanto o “B” por mais escuros, o que faz suas características serem reforçadas.

esse exemplo foi feito por Edward H. Andelson e em seu site existem vários outros estudos de percepção.  

*Cialdini, R., 1993. Influence  Science and Pratice.


Contraste simultâneo

15 setembro, 2007

O exemplo da bolinha verde que surge quando as bolinhas de tom rosa desaparecem, mostrados no último tópico  prova como o olho busca constantemente entrar em equilíbrio. Isso acontecerá sempre, independente da nossa vontade. 

Essa busca do olho não pode passar despercebida quando se trabalha com cores. Pois muitas vezes, por tentar estar em equilíbrio, o cérebro interpreta as cores de maneira diferente de como elas são de verdade. Isso pode gerar efeitos interessantes, como também ferrar tudo.

O contraste simultâneo é uma conseqüência do trabalho do olho pela busca de equilíbrio. Ele ocorre sempre  que o olho é sensiblizado por uma cor. A partir desse instante, o olho procura o tom complementar a essa cor , para que esses tons se anulem e ele possal voltar ao seu estado de equilíbrio inicial. Quando o olho encontra esse tom complementar e consegue se anular, consegue-se  a  famosa “harmonia cromática” (esse é um conceito que será desenvolvido mais a diante).
Entretanto, quando o olho não encontra o tom complementar, ele a projeta em algum tom qualquer localizado próximo a cor original. Dessa forma, cada cor assume um pouco do tom complementar de outra.

veja no exemplo abaixo

contraste-simultaneo.jpg

Nessa imagem, o quadrado cinza escuro e o quadrado verde possuem a mesma luminosidade. já os dois quadrados cinzas centrais são exatamente iguais. No entanto, o quadrado que está dentro do quadrado verde está avermelhado.  O que acontece é que nosso cérebro, tentando anular o verde, projetou no cinza a cor vermelha. O cinza, por ser um tom neutro, é muito mais suscetível a receber influência dos outros tons.

é interessante notar  que o cinza deixou de ser uma cor neutra e morta e assumiu um novo e totalmente diferente valor. Essa é uma das características que tornam o cinza uma cor especial, ele é extremamente sensível as cores que se localizam próximas a ele (principalmente se essas tiverem a mesma luminosidade dele).

Com pequenos ajustes pode-se  de itensificar ou anular esse efeito ( clique na imagem para vê-la em maior tamanho, talvez seja mais fácil perceber:

contraste-simultaneo2.jpg

No quadrado cinza à esquerda, o efeito do contraste simultâneo é reforçado, pois foi adicionado um pouco de azul a ele. O quadrado central possui o tom o cinza neutro, nele o efeito do contaste simultâneo está presente, entretanto não é reforçado nem anulado. No quadrado à direita, o efeito do contraste simultâneo é anulado, pois foi adicionado a ele um pouco de laranja.

Itten conta que em uma tecelagem, havia uma série de gravatas vermelhas com listras pretas não eram vendidas, pois as pessoas acreditavam que as listras eram verdes.  Se eles pintassem as listras levemente de marrom, o problema seria resolvido.

Outra maneira de se reduzir o contraste simultâneo é colocando cores de diferentes luminosidades próximas umas às outras. O contraste claro-escuro reduz a o efeito simultâneo

 Apesar do cinza ser a cor em que é mais fácil se perceber esse efeito, o contraste simultâneo  pode acontecer em em todas as cores.  Nesses casos, cada cor tenta transformar a outra em sua complementar, ambas perdem suas características intrínsecas e assumem outras totalmente novas. A estabilidade que é alcançada ao secriar uma composição harmônica é quebrada. Aquilo que a natureza físico-químca das cores dizem, não é aquilo que o cérebro interpreta.

Conhecer o efeito da simultaneidade é extremamente importante para se criar um sentido novo, irreal e surpreendente para as cores ou então para  evitar de se cometer grandes erros. Olhe as fotos abaixo, na fotografia de fundo alaranjado, o arroz assume ( ou deveria assumir) um aspecto azulado (olhe principalmente nas sombras).

arroz.jpg 

ah, o arroz nos pratos é igual em ambas  as fotos.

o efeito nesse caso está bastante sutíl, estou procurando outro melhor para exemplificar esse tópico.


contraste de cores complementares

5 setembro, 2007

 a camiseta abaixo é um  exemplo, no mínimo estranho, de cores complementares (infelizmente, por imprecisão dos monitores, as cores variam muito de computador para computador, mas ainda assim acredito que em muitos monitores, a foice e o martelo parecem vibrar – questão 6 lá do começo do blog). 

 

Para não haver dúvidas, sobre o que é um bom uso da teoria das cores complementares, vou apelar para um cara F… pra C… . Esse quadro do Van Gogh ( o tal que eu falei que é F… pra C…), usa uma seleção de tons semelhantes aos da camiseta acima. Entretanto no Van gogh, os tons  ressaltam uns aos outros sem vibrarem. Veja como a luz do café contrasta com o azul do céu e com o escuro da noite. A luz  parece nos convidar a sair da escuridão  e a entrar nesse aconchegante local.

 

Para ser bem sincero, acho que esse é o assunto mais legal sobre contraste, principalmente porque ele influencia os contrastes que vêm a seguir.

Nas perguntas sobre cores do começo do blog, algumas delas se relacionavam a cores complementares, que lá, eu também chamei de cores opostas. A primeira característica de tons complementares entre si, é que eles se localizam em pontos diametralmente opostos na roda de cor (o mais longe possível um do outro). Assim de acordo com a roda de cores do Itten, percebe-se que o laranja é o complementar do azul, o verde é o complementar do vermelho e o violeta do amarelo. Se formos trabalhar com a roda de cores baseada nas teorias aditivas e subtrativas teremos então o azul complementar ao amarelo, o ciano complementar ao vermelho e o magenta ao verde). Vale lembrar que todos os tons possuem seu complementar.

Cores complementares podem ser definidas como tons que, quando somados, resultam no cinza médio.

Ainda falando da  soma de tons complementares, perceba que nela sempre há a participação das 3 cores primárias,

  • amarelo + violeta = amarelo + (vermelho+azul)
  • azul + laranja = azul + (amarelo + vermelho)
  • vermelho + verde = vermelho ( amarelo + azul)

Quando se retira da luz branca uma cor, a resultante das cores que sobram equivale a complementar daquela que foi retirada, ou seja, quando se retira o amarelo da luz branca, a soma dos tons que sobram é violeta.

É interessante ver que alguns pares de complementares apresentam algumas particularidades:

  • O amarelo e o violeta representam o contraste máximo entre cores puras no contraste de claro e escuro.
  • O vermelho-laranja e o verde azul representam o contraste máximo de cores quente e frias.
  • O vermelho e verde são tons complementares que possuem a mesma luminosidade.

Essas cores quando colocadas lado a lado ressaltam uma a outra. Esse é um efeito que pode trazer excelentes resultados, como ferrar tudo ( ver questão 6 do começo do blog). Quando bem usados esses tons se “equilibram”.
Este equilíbrio ocorre justamente porque a soma de tons complementares resulta no cinza médio. O cinza médio é a cor neutra. Nessa cor, o olho faz a sua dissimilação (consumo) e assimilação (regeneração) em mesma quantidade, alcançando o equilíbrio que é a base da harmonia cromática. Isso não quer dizer, que o cinza seja um tom morto, pelo contrário, mas isso é assunto que veremos adiante.  

Existem alguns efeitos fisiológicos que comprovam o contraste complementar, o primeiro é a pós-imagem. Ela ocorre quando se olha para uma luz por algum tempo. As células do olho ficam saturadas e até incapacitadas de perceber outras cores. Para que o olho volte ao seu equílibrio, o cérebro projeta a cor complementar àquela que satura o olho, para anular seus efeitos e alcançar o cinza. Chamamos isso de “pós-imagem”.

O exemplo abaixo retrata muito bem a pós-imagem.  Primeiro tente acompanhar o movimento da imagem, você verá que um círculo se apaga por vez. Entretanto quando se olha para a cruz central enxerga-se  no lugar daquele que sumiu, um círculo  de tom complementar a original.  Esse exemplo também mostra o quão dinâmico é nosso olho e retrata a sua incessante luta para estar em equilíbrio.

 

evitem olhar isso por muito tempo

a pós-imagem também pode ser justificada nesse exemplo da bandeira do Brasil. Olhe para essa imagem por uns 30 segundos e depois olhe para uma superfície branca.

O segundo efeito fisiológico que comprova  a complementariedade das cores é o contraste simultâneo que será explicado a seguir.

vou deixar aqui uma característica importante das cores complementares que fará muito sentido com os próximos tópicos.  O bom uso de tons complementares garante um efeito estático às cores, ou seja, a natureza fisico-quimica da cor coincide com a interpretação dada ao cérebro para elas. Isso pois uma cor irá anular a outra ( já que a soma delas resulta no cinza). Assimo cérebro não precisará projetar uma cor na outra. ( para entender melhor, leia o tópico de contraste simultâneo).